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O relógio da avenida marcava 7ºC. O frio era dilacerante para quem não estava acostumado. Uma mulher vestindo um casaco creme andava ao lado de um homem vestido de preto. Eles conversavam, falavam demasiadamente apesar do ar gelado. O passo deles era lento, como se quisessem prolongar a noite o máximo possível. Sorriam de uma forma delicada e serena. A rua por onde caminhavam estava chegando ao fim, e a casa dela aproximava-se.
Passaram por uma parede escura, e sob a sombra de uma árvore ela o segurou pela mão. Olhou-a assustado, um movimento inesperado que lhe causou arrepios. Ela focou os olhos naqueles que olhavam-na admirados, e disse da forma mais suave e intensa possível: Eu te amo. Empurrou-o para a parede e encostou seus lábios nos dele. Dois corações que batiam no mesmo ritmo, e pararam simultaneamente.
O vento congelava suas bochechas, mas por dentro estavam quentes. O calor daquele abraço preenchia todas suas veias e fervia o sangue. A paz obtida com aqueles toques tão leves era inimaginável. As bocas separaram-se, e ele sussurrou em seu ouvido: Eu também. Abraçavam-se com força, os olhos fechados, as mãos deslizando pelos cabelos, os suspiros quebrados. Ele afastou-se um pouco, e passou os dedos pelo rosto dela. Contornava com delicadeza os traços daquela garota pela qual havia se apaixonado. Sua beleza era inegável, mas o brilho que emanava daquele sorriso era mais encantador ainda.
As mãos cruzaram-se e eles continuaram o caminhar, lentamente. Finalmente chegaram à porta do prédio, pararam novamente. Despediram-se silenciosamente, outro beijo, um afago nos cabelos e o olhar vago. Ela não sabia quando o veria novamente, mas apesar da tristeza evidente, preferia que fosse assim. Nunca fora bem sucedida com relacionamentos habituais, e essa ânsia da surpresa agradava-a imensamente. Pegou a chave do bolso, e virou-se para abrir a porta.
Quando olhou para trás novamente ele havia desaparecido, mas algo estava no chão. Abaixou-se para pegar e deparou-se com uma rosa e um bilhete. A flor era vermelha, uma cor intensa, de forma que até doía ao olhar. No bilhete, letras manchadas de tinta preta: Palavras escorrem pelos meus lábios, mas aquelas que lho digo são sinceras. Um amor não sobrevive se não for forte. O nosso é virtuoso e consistente. Estrelas, céu, ah... como tudo isso torna-se pequeno perto da tua beleza. És-me o mais precioso de todos os segredos. Guarda este sentimento contigo, a eternidade nos espera...
Riu baixo, com lágrimas nos olhos. Entrou em sua casa e subiu as escadas, preparando-se para mais uma noite sem dormir. Saiu na varanda, sentiu a brisa daquela noite e a mistura da dor e da paixão invadirem-na. Aquela sensação paradoxal que só pertencia a ele.
E mais um beijo perdeu-se pela multidão que preenchia a rua deserta.
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The Beatles - Something
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Um comentário:
uau! que narrativa mais agradável de se ler!! tá de parabens!!
e, olha, alguém anda bem romantica ultimamente.... hehehehe será o frio??
beijo
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