segunda-feira, 20 de julho de 2009

Um princípio sem final

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O relógio da avenida marcava 7ºC. O frio era dilacerante para quem não estava acostumado. Uma mulher vestindo um casaco creme andava ao lado de um homem vestido de preto. Eles conversavam, falavam demasiadamente apesar do ar gelado. O passo deles era lento, como se quisessem prolongar a noite o máximo possível. Sorriam de uma forma delicada e serena. A rua por onde caminhavam estava chegando ao fim, e a casa dela aproximava-se.
Passaram por uma parede escura, e sob a sombra de uma árvore ela o segurou pela mão. Olhou-a assustado, um movimento inesperado que lhe causou arrepios. Ela focou os olhos naqueles que olhavam-na admirados, e disse da forma mais suave e intensa possível: Eu te amo. Empurrou-o para a parede e encostou seus lábios nos dele. Dois corações que batiam no mesmo ritmo, e pararam simultaneamente.
O vento congelava suas bochechas, mas por dentro estavam quentes. O calor daquele abraço preenchia todas suas veias e fervia o sangue. A paz obtida com aqueles toques tão leves era inimaginável. As bocas separaram-se, e ele sussurrou em seu ouvido: Eu também. Abraçavam-se com força, os olhos fechados, as mãos deslizando pelos cabelos, os suspiros quebrados. Ele afastou-se um pouco, e passou os dedos pelo rosto dela. Contornava com delicadeza os traços daquela garota pela qual havia se apaixonado. Sua beleza era inegável, mas o brilho que emanava daquele sorriso era mais encantador ainda.
As mãos cruzaram-se e eles continuaram o caminhar, lentamente. Finalmente chegaram à porta do prédio, pararam novamente. Despediram-se silenciosamente, outro beijo, um afago nos cabelos e o olhar vago. Ela não sabia quando o veria novamente, mas apesar da tristeza evidente, preferia que fosse assim. Nunca fora bem sucedida com relacionamentos habituais, e essa ânsia da surpresa agradava-a imensamente. Pegou a chave do bolso, e virou-se para abrir a porta.
Quando olhou para trás novamente ele havia desaparecido, mas algo estava no chão. Abaixou-se para pegar e deparou-se com uma rosa e um bilhete. A flor era vermelha, uma cor intensa, de forma que até doía ao olhar. No bilhete, letras manchadas de tinta preta: Palavras escorrem pelos meus lábios, mas aquelas que lho digo são sinceras. Um amor não sobrevive se não for forte. O nosso é virtuoso e consistente. Estrelas, céu, ah... como tudo isso torna-se pequeno perto da tua beleza. És-me o mais precioso de todos os segredos. Guarda este sentimento contigo, a eternidade nos espera...
Riu baixo, com lágrimas nos olhos. Entrou em sua casa e subiu as escadas, preparando-se para mais uma noite sem dormir. Saiu na varanda, sentiu a brisa daquela noite e a mistura da dor e da paixão invadirem-na. Aquela sensação paradoxal que só pertencia a ele.
E mais um beijo perdeu-se pela multidão que preenchia a rua deserta.

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The Beatles - Something


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quarta-feira, 15 de julho de 2009

Coffee Break

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A fumaça sai de sua boca e sobe em espiral daquela xícara. Observando os detalhes que a desenham, percebe as linhas finas e delicadas. Composições antigas, mas a beleza continua impregnada naquelas lascas de tinta. Mexe o café com uma pequena colher, e vê o líquido mover-se em círculos. O cheiro daquela bebida é magnífico, e convém àquele momento. Um dia frio, o vento que congela o sorriso e arrepia os ossos.
Ela sempre preferiu o inverno, a face das pessoas torna-se mais imponente e secreta durante essa estação. Uma música leve passa por seus ouvidos e dança pelas sinapses. O olhar baixo, o riso doce, a forma como os traços se movem, evidenciam que algo continua escondido naquele rosto. Recordações ou ânsias para o futuro próximo? Talvez ambas as coisas.
O som de uma campainha indica a chegada de outra pessoa ao recinto. Ela vira-se, olha, e sorri quando reconhece a amiga a qual estava esperando. Observa-a caminhar, sentar-se ao seu lado, e sorrir igualmente. O garçom aproxima-se e pergunta o que desejam.

- Mais uma xícara de café, por favor.


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Lembretes pessoais:
- Nenhum. Eu quero mais é aproveitar a vida xD

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Beijo!

terça-feira, 7 de julho de 2009

You... just like heaven

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Luzes dançam. A música ressoa em seus ouvidos, quase fundindo-se com o próprio tímpano. O cheiro de cigarro e álcool, o suor de tantas pessoas juntas preenche o local. Escuro, claro. Flashes quase a cegam, então prefere fechar os olhos e deixar-se levar pelos próprios sentidos.
O tato encontra peles ásperas, tecidos macios, as mãos escorregam por tudo aquilo que consegue tocar. A audição ouve batidas fortes vindas de todo canto. A música, o pulsar dos corações, as risadas... só não consegue ouvir os passos. O chão está distante demais para isso. O paladar detecta o gosto ácido do ar, e o doce do hálito. Engole com dificuldade a saliva amarga que formou-se em sua boca. No olfato diversos perfumes misturam-se. Florais, cítricos, masculinos, femininos. Caros, baratos. O cheiro dos desejos e da malícia também pode ser sentido naquele meio. A visão? Os olhos permanecem cerrados por uma força invisível. Mas ela pode enxergar cores e formas distorcidas, luzes piscando de forma magistral.
Está só. Corpos interagem com o dela, palavras são trocadas, mas por dentro sente-se mais solitária do que qualquer um nesse instante. Uma tentativa de esquecer as dores - não físicas, mas que doem igualmente. A decisão que fora tomada mais cedo naquele dia vem à lembrança, e ela sorri de novo. O mundo lhe pertence, a noite com seus delírios mais insanos é sua. Provará de tudo hoje, sente vontade de excessos e sensações novas.
Segura na mão mais próxima a sua e finalmente abre os olhos. Aquele rosto conhecido... não, algo está errado. O que menos queria era vê-lo, já sofrera demais. Antes que pudesse dizer uma só palavra, as bocas encontram-se e ela se perde. O coração palpitante no máximo volume. Os sons fundem-se e tudo parece distante... Os nervos contraem-se. Um momento de tensão que poderia significar tudo aquilo que lhe falta. Aquele gosto tão familiar e presente.
Separam-se e ela se afasta o máximo que pode, corre sem se preocupar com os pés em que tropeça ou com os gritos que lhe dirigem. Sente alguém segurar forte em seu braço, puxá-la e sussurrar em seu ouvido "Desculpa, eu te amo. Você sabe que é a única que realmente me faz bem." Palavras tão comuns e que machucam-na tanto. Lágrimas caem e tudo aquilo que lutara para esconder nos cantos mais remotos da mente vêm à tona novamente.
Uma sábia decisão merece ser tomada, mas ao que isso implicaria? A promessa de uma vida regada ao amor na sua forma mais pura? Extravagâncias. Exageros. Intensidade. Felicidade, e tristeza, extremas. Não haveriam barreiras e o limite seria imposto eles. Surpresas a cada palavra dita. A dor e a mágoa que isso traz... Compensam o brilho nos olhos e a sensação de plenitude? A outra escolha seria mais fácil. Um caminho mais seguro... Segurança? Não importa tanto quando o desejo grita mais alto.
O homem na sua frente guardava tudo que ela já sentira em sua vida. Ele lhe despertava ódio, assim como amor. Desprezo e admiração na mesma intensidade. Era sua ruína, mas sabia também que sem ele a vida seria enfadonha e incompleta.
Joga os braços ao redor de seu pescoço e sente que ele lhe abraça com força. Como sente-se segura naquele corpo.
- Eu te odeio.
Ele sorri e enxuga as lágrimas daquele rosto tão delicado.
- Nossa ligação vai aquém de qualquer sentimento humano como ódio ou amor, você sabe disso.



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