quinta-feira, 19 de março de 2009

Eternidade

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O céu, à primeira vista, parece estar em guerra.
As nuvens, negras, chocam-se. Luz intensa, energia. Um raio.
Um trovejar, atrasado, revigorante. Forte.
A primeira partícula de água cai. Seguem-na centenas, milhares!
Ela foi a primeira.

Uma garota, no meio da cidade, igual à tantas outras. Ou não.
Livros e cadernos na mão, olha para o céu e vê a chuva aproximando-se.
Correr? Para quê? Hoje não.
O coração bate sempre no mesmo ritmo.
Os dias têm passado de forma semelhante para aquela menina.
Entorpecida, não se lembra desde quando.
A névoa que envolve seus sentidos começa a esvaecer-se.
Ela sente.

Um garoto - coincidência? - no meio da cidade também.
O dia de hoje, para ele, não é igual aos outros. O mundo caiu sobre sua cabeça.
Os olhos cheios de lágrimas, salgadas de dor.
"O que farei agora? Como viver sem ela...?"
Caminhando pela rua, as pernas levam-no à algum local desconhecido.
A dor transforma-se em raiva. Arde, grita de dentro da alma.
Ele sente ainda mais.

A garota nunca enxerga o óbvio. Ela vê além dele.
Tem medo, porém, de ser. Entende à todos, menos a si própria.
Sempre buscou o melhor... Concluiu que não é sempre o mesmo.
Os olhos. Eles são sempre intensos.
Raro aquele que consegue desvendá-los ou fugir da sua imensidão.
Ela deseja.

O garoto sempre buscou o que era dele. Ele sabe como.
O que é belo transforma-se em sublime em suas mãos.
O coração sempre acelerado, um sorriso de mil faces.
Guarda dentro de si um mundo de segredos, verdades.
Ninguém conhece-o ao todo. Ele sabe enganar.
Mas não passa de uma criança buscando aprender...

A gota, partícula que antecipou à todas as outras, continua caindo.
Engana-se quem pensa que é apenas uma gota d'água.
Percorrendo o caminho à ela pré-definido, sofre um impacto.
Uma rajada de vento a faz perder o rumo. Sozinha no meio de tantos.
Inesperadamente, ela sente o calor de duas almas próximas à ela.
São vermelhas. Fortes.
Nunca havia sentido tanta beleza em dois seres vivos anteriormente.
Ela sabe o que deve fazer.
Dividiu-se ao meio, o vento encarregaria-se do resto.
Agora, duas gotas. Duas vidas. Dois universos.

A calçada pela qual a garota anda torna-se turva. É o medo.
Ansiosa, esperando. O quê? Nem ela sabe...
Mas anseia por acreditar naquilo que nem ao menos conhece.
Uma gota atinge seu rosto. Ela ri, olha adiante.
E o vê.
O garoto é mais difícil. Ele esquiva-se, sem saber, do tão desejado início.
A amargura ainda toma conta da sua mente.
A gota, então, vem ainda mais forte. Atinge sua face.
Ele sorri - o seu melhor sorriso. Olha para a frente.
Ele a vê.

O nascimento - ou a morte - de uma estrela não seria capaz de liberar tanta energia.
Ela negativa. Ele positivo. Atraem-se de tal forma, que torna-se impossível aos dois desviar o olhar. Ou piscar.
Ele conhece. Ela entende. A troca mútua de informações ocorre no segundo seguinte.
Um suspiro. O mundo surreal a qual pertencem torna-se evidente.
Não há mais medo por parte dela, nem mágoa por parte dele.
As almas sentem-se plenas, encontraram a essência.
O mundo não parou.
Os dois continuam o seu caminhar, cruzam-se e partem em direções opostas.

Nunca mais voltariam a se ver.
O instante do repentino encontro, porém, ficou gravado nele. E nela.
Não somente em suas mentes. No espírito.
A garota nunca mais irá sentir-se vazia, ou temerosa.
O garoto deixou de sentir rancor, raiva, tristeza.
Tornaram-se puros. Não inocentes, apenas completos.
Eles conheceram o que todos buscam. Aprenderam.
Hoje, sabem que o eterno aprendizado é a eterna felicidade.
Amaram-se. E amam-se, intensamente.
Até o final. Esperando que ele nunca chegue.



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